Quando falo do anseio pelo belo, ideal como objetivo fundamental da arte, não estou absolutamente sugerindo que a arte deva esquivar-se da “sujeira” do mundo. Pelo contrário! O horrível e o belo estão sempre contidos um no outro. Em todo o seu absurdo esse prodigioso paradoxo alimenta a própria vida, e, na arte, cria aquela unidade ao mesmo tempo harmônica e dramática. A imagem artística é sempre uma metonímia em que uma coisa é substituída por outra, o menor no lugar do maior. Para referir-se ao que está vivo, o artista lança mão de algo morto; para falar do infinito, mostra o finito. Não se pode materializar o infinito, mas é possível criar dele uma ilusão: a imagem.
Uma imagem pode ser criada e fazer-se sentir. Pode ser aceita ou recusada. Nada disso no entanto pode ser compreendido através de um processo exclusivamente cerebral. A ideia do infinito não pode ser expressada por palavras ou mesmo descrita, mas pode ser apreendida através da arte, que torna o infinito tangível. Só se pode alcançar o absoluto através da fé e do ato criador.
Por Andrei Tarkovski.