May 2012
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“Palavras, palavras, palavras” - na vida real estas tem pouco significado, e só raramente, e por muito pouco tempo, pode-se testemunhar uma perfeita harmonia entre palavra e gesto, palavra e ato, palavra e sentido. Pois, em geral, as palavras de uma pessoa, seu estado interior e suas ações físicas desenvolvem-se em planos diversos. Eles podem se complementar ou, às vezes, até certo ponto, estar em concordância mútua; no mais das vezes, porém, elas se contradizem, e em alguns momentos de extremo conflito, desmascaram-se mutuamente.
Por Andrei Tarkovski.
Para ser fiel à vida e intrinsecamente verdadeira, uma obra deve, a meu ver, ser ao mesmo tempo um relato exato e efetivo de uma verdadeira comunicação de sentimentos. Você caminha por uma rua e os seus olhos encontram-se com os de alguém que passou ao seu lado. Houve algo de surpreendente nesse olhar, que lhe transmitiu um sentimento. A pessoa que passou influenciou-o psicologicamente, deixando-o num estado de espírito específico. Se você se limitar a reproduzir com precisão macânica as condições em que se deu tal encontro, vestindo os atores e escolhendo o local da filmagem com a exatidão de um documentário, não conseguirá obter na sequência fílmica a mesma sensação que teve quando do encontro na rua. O que terá acontecido é que, ao filmar a cena do encontro, você não levou em conta o fator psicológico, o estado mental que permitiu que o olhar do estranho o afetasse daquela forma específica. Portanto, para que o público se impressione com o olhar do estranho, da mesma maneira que você na ocasião, é preciso prepará-lo, criando um estado de espírito semelhante ao seu no momento em que ocorreu o verdadeiro encontro.
Por Andrei Tarkovski.
- Bazárov: De mais a mais, a senhora talvez seja demasiado exigente - disse ele, inclinando o corpo todo para a frente e brincando com a franja da poltrona.
- Odíntsova: Talvez. Para mim, é tudo ou nada. Uma vida custa uma vida. Tomou a minha, entregue a sua, sem remorso e sem recompensa. Do contrário, é melhor deixar de lado.
- Bazárov: Pois muito bem - respondeu Bazárov. - É uma condição justa e me admira que a senhora até hoje... não tenha encontrado o que deseja.
- Odíntsova: Acaso o senhor pensa que é fácil entregar-se completamente a seja lá o que for?
- Bazárov: Não é fácil, se a pessoa começar a refletir, se esperar a hora certa, e se der valor a si mesma, ou seja, se tiver apreço a si mesma; mas, sem refletir, entregar-se é muito fácil.
- Odíntsova: Como é possível não ter apreço a mim mesma? Se eu não tivesse nenhum valor, quem precisaria da minha devoção?
- Bazárov: Isso já não é da minha conta; cabe aos outros determinar o meu valor. O principal é que é preciso saber entregar-se.
- Odíntsova separou-se do espaldar da poltrona./p.155.
O tempo (como se sabe) às vezes voa como um pássaro, outras vezes se arrasta como um verme; mas, para o homem, o melhor é que nem repare se o tempo passa rápido ou devagar.
Por Ivan Turguêniev/Trad. Rubens Figueiredo/Pais e Filhos/p.143.
Sinto meus poderes aumentarem. Ardendo, bêbado de um novo vinho. Sinto a coragem, o ímpeto de ir ao mundo, de carregar a dor da Terra e o prazer da Terra. De lutar contra tempestades e enfrentar a ira do trovão. Nuvens se ajuntam sobre mim. A lua esconde a sua luz, a lâmpada se apaga. Devo levantar! Eu não era nada e aquilo me bastava. Agora não quero mais a parte, eu quero toda a vida. Eu quero toda a vida!
Fausto de Goethe. fragmentos em versão livre para o filme Terra Estrangeira de Walter Salles.
Para que alguma coisa surja é preciso que alguma coisa desapareça. A primeira configuração da esperança é o medo. A primeira manifestação do novo é o horror.
Por Heiner Müller.