May 2012
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- Atriz: Vocês diretores italianos parecem ser pagos para se zangarem sobre como caminha o mundo.
- Diretor: E também para rir dele.
- Atriz: É sempre uma maneira de não estar de acordo com ele. Eu, ao contrário, concordo com tudo o que me acontece.
- diálogo do filme Identificação De Uma Mulher/Identificazione Di Una Donna. Antonioni/1982.
April 2012
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Acho que somos felizes quando o corpo está de acordo com os pensamentos, as ideias. O meu se acostumou a ficar nos gramados, nos rios, nas árvores, na geada. E lá os pensamentos são diferentes dos da cidade. Aqui (na cidade), as leis da natureza não contam, eu me sentiria vazia.
citação do filme Identificação De Uma Mulher/Identificazione Di Una Donna. Antonioni/1982.
O teatro entrou na minha vida e com ele a maravilha de poder me expor, sem “guardas sociais”, num encontro entre humanos. Então, por que não ser idiota na frente de todos, podendo continuar lúcido e, ao mesmo tempo, abrir espaço para que outros da minha espécie possam também se deixar serem idiotas, por alguns momentos que sejam? No mais extremado risco o rito teatral nos protege das adversidades que matam cotidianamente a nossa beleza idiota; ele nos resguarda de sermos devorados por uma série de regras da vida social que determina que não devemos dizer o que pensamos e sentimos, que manda que a delicadeza deve ser comedida, calculada, programada… E para além do ato performático estático e contemplativo, interessou-me sempre, e muito, a arena de embates sentimentais, ideológicos e morais. Lufadas de desejos novos precisam soprar e elas podem vir de qualquer lugar e tempo. O tempo não é mesmo linear. O teatro, essa arte anacrônica, que vive do poder humano manifesto em poesia, pode se recusar a ser só mais um compromisso da classe média antes do jantar e promover encontros para pensar, ouvir, ver, mexer o corpo, compreender, desejar, amar… sentir, idiotamente. Ou seja, podemos nos deixar permear pelos outros seres e coisas. Amorosamente!
Por Aury Porto. trechos de seu texto para o programa de O Idiota/Uma Novela Teatral.
Dostoiévski não coincidiu com um período particular de nossa história. Ele coincide com o tempo histórico que continua durando e, ao mesmo tempo, não coincide com ele, pois sempre se encontra à frente. Ele poderia falar de si mesmo com as palavras de uma grande poeta russa, Óssip Mandelstam: “Não, nunca fui contemporâneo de ninguém…”.
Por Ígor Vólguin/tradução Anastassia Bytsenko.
Em toda a obra de Dostoiévski foi sucessivamente materializado um princípio irrevogável: o conhecimento de si mesmo é impossível sem o outro. Em Dostoiévski o caminho do autoconhecimento e da autossalvação começam como uma ação voltada para o outro. No mundo dos romances de Dostoiévski um indivíduo pode conhecer a si mesmo não por meio de pura especulação, nem mediante procedimentos lógicos (ainda que sejam os mais refinados), nem como resultado de uma inspiração interna, mas somente por meio de ações reais, atos, feitos, bons (ou não). Somente o comportamento extrovertido, a saída para o outro possibilita a salvação e o renascimento pessoais. O escritor russo foi o primeiro a constatar uma das principais substâncias do processo histórico universal: como um indivíduo particular, um povo, uma nação, uma etnia, podem ter consciência de si somente na intersecção das culturas, quando estão abertos ao outro. O isolamento do mundo reduz qualquer povo à posição de “pequeno” e o retira do processo histórico universal. Somente uma nação que esteja espiritualmente aberta ao outro, apta para compreender essa obra “alheia” e transformá-la em “seu”, pode ser relamente grande. Uma nação, assim como um indivíduo particular, não pode entender a si mesma sem a interação com o outro. Uma cultura nacional que se fecha em si mesma está condenada à decadência e ao desaparecimento.
Por Ígor Vólguin/tradução Anastassia Bytsenko.